DOUTRINA DA IMPOSIÇÃO DE MÃOS: O que saber e fazer?

A imposição de mãos é uma prática recorrente na Bíblia, desde o Antigo até o Novo Testamento, e carrega consigo um profundo significado espiritual. Para compreendê-la adequadamente e aplicá-la de maneira correta, é essencial entender o contexto histórico e os objetivos dessa prática. UM CANAL DIVINO No Antigo Testamento, a[...]

A imposição de mãos é uma prática recorrente na Bíblia, desde o Antigo até o Novo Testamento, e carrega consigo um profundo significado espiritual. Para compreendê-la adequadamente e aplicá-la de maneira correta, é essencial entender o contexto histórico e os objetivos dessa prática.

UM CANAL DIVINO

No Antigo Testamento, a imposição de mãos aparece em diversas situações, como um símbolo de autoridade, bênção e consagração. Em Gênesis 48.14, Jacó impõe as mãos sobre os filhos de José, abençoando-os e assegurando a continuidade da promessa divina. Esse gesto não era apenas um ato físico, mas tinha um significado espiritual profundo, representando a aprovação de Deus e a transferência de bênção. Já em Números 27.18-23, Moisés impõe as mãos sobre Josué, transferindo-lhe a autoridade e sabedoria necessárias para liderar o povo de Israel.

“O Senhor respondeu: ‘Convoque Josué, filho de Num, em quem está o Espírito, e coloque as mãos sobre ele. Apresente-o ao sacerdote Eleazar diante de toda a comunidade e encarregue-o publicamente de liderar. Transfira a ele parte de sua autoridade, para que toda a comunidade de Israel lhe obedeça’”.

UMA BÊNÇÃO PARA O POVO

Assim, no Antigo Testamento, a imposição de mãos estava associada à transmissão de poder, bênção ou responsabilidade espiritual, sendo vista como uma prática de consagração diante de Deus. Em contrapartida, no Novo Testamento, a imposição de mãos adquire uma nova ênfase, refletindo o ministério de Jesus e o ensino dos apóstolos. Um dos aspectos mais evidentes é o uso desse gesto para cura. Em Lucas 4.40, vemos Jesus curando os enfermos com a imposição de mãos.

“Ao pôr do sol, todos os que tinham doenças variadas o trouxeram, e ele as curou impondo as mãos sobre cada um deles.”

O termo grego para “impor as mãos” usado neste versículo é “epitithēmi” (Strong’s), que significa literalmente “colocar sobre”. Esse gesto não denota apenas um toque físico, mas simboliza a transferência do poder curador de Deus. A imposição de mãos, nesse contexto, expressa a autoridade divina de Jesus sobre as enfermidades, sendo o meio através do qual essa autoridade se manifesta. Além da cura, a imposição de mãos é usada também para abençoar. Em Marcos 10.16, lemos:

“E ele as abençoou, impondo-lhes as mãos.”

Nesse contexto, Jesus não apenas tocava as crianças, mas liberava sobre elas bênçãos espirituais, demonstrando seu cuidado e amor. A palavra grega para “abençoar” é “eulogeō” (Strong’s), que significa “falar bem de” ou “dar uma boa palavra”. Assim, ao impor as mãos, Jesus estava pronunciando uma palavra de graça e favor divino sobre elas.


UMA SEGUNDA BÊNÇÃO

A ação de impor as mãos também está intimamente ligada ao batismo no Espírito Santo, uma prática que se torna central no ministério apostólico. Em Atos 8.17, por exemplo, após Filipe pregar o Evangelho em Samaria, os apóstolos Pedro e João impõem as mãos sobre os novos crentes para que recebessem o batismo no Espírito Santo.

“Então, impuseram-lhes as mãos e receberam o Espírito Santo.”

A imposição de mãos aqui atua como um canal através do qual os crentes recebem a capacitação divina para viverem a nova vida em Cristo, agora fortalecidos pelo Espírito. O verbo usado em Atos, novamente “epitithēmi”, é um indicativo da transferência espiritual de poder, no qual os apóstolos agiam como instrumentos de Deus para liberar a unção do Espírito sobre os crentes.

No contexto da liderança espiritual, a imposição de mãos não deve ser tratada de maneira leviana, pois implica a conferência de uma responsabilidade espiritual — como vimos anteriormente, no Antigo Testamento, por exemplo, com Moisés e Josué. Esse princípio se repete no Novo Testamento, em Atos 6.6, onde os apóstolos impõem as mãos sobre os sete diáconos, consagrando-os para o serviço no ministério. Dentro do contexto da igreja, isso torna-se relevante, pois a liderança e o serviço são reconhecidos e estabelecidos sob a orientação de Deus.

A RESPONSABILIDADE DE IMPOR AS MÃOS

Por isso, a Bíblia sugere que a imposição de mãos seja realizada por aqueles que possuem autoridade espiritual sobre os outros, como líderes, pastores ou ministros, que têm o discernimento necessário para esse ato. Isso fica evidente, por exemplo, quando Paulo instrui o jovem Timóteo sobre a importância da imposição de mãos como um ato de confirmação do chamado ministerial I Timóteo 4.14.

“Não descuide do dom que recebeu por meio de profecia quando os presbíteros impuseram as mãos sobre você.”

No entanto, a advertência de Paulo em I Timóteo 5.22 é crucial para compreender a seriedade desse ato:

“Não imponhas as mãos precipitadamente sobre ninguém”.

Essa orientação revela que a imposição de mãos não deve ser feita de forma impulsiva ou sem o devido discernimento. Impor as mãos de maneira precipitada pode envolver riscos espirituais, como a transferência de uma autoridade que não foi devidamente examinada ou a consagração de alguém que ainda não está espiritualmente preparado para o ministério ou responsabilidade que se pretende conferir. A advertência de Paulo também aponta para a necessidade de discernimento na escolha daqueles que devem receber a imposição de mãos, especialmente no contexto da ordenação ou consagração.

Além disso, o ato de impor as mãos deve ser precedido de discernimento espiritual, com o intuito de agir conforme a vontade de Deus e não segundo seus próprios interesses ou pressões externas. Por outro lado, quem recebe as mãos impostas deve estar em um estado de submissão e prontidão para receber a capacitação divina que é liberada por meio desse gesto.

EM UMA MISSÃO ESPECÍFICA

A imposição de mãos também é mencionada em outras passagens, como em Atos 13.3, onde os líderes da igreja em Antioquia impõem as mãos sobre Paulo e Barnabé antes de enviá-los em uma missão. Esse ato é uma demonstração pública de aprovação e envio, e é realizado dentro do contexto de uma comunidade de fé que reconhece a autoridade espiritual daqueles que são chamados para uma obra específica. A imposição de mãos, portanto, carrega a ideia de um envio oficial, um reconhecimento de que alguém foi escolhido e preparado por Deus para desempenhar uma função ou ministério.

A Bíblia não restringe explicitamente quem pode impor as mãos, mas ensina que essa prática deve ser guiada por discernimento espiritual e uma direção clara do Espírito Santo. Há momentos em que Deus pode usar outra pessoa para esse propósito, além da liderança local. Um exemplo está em Atos 9.10-17, onde vemos Ananias, um discípulo, sendo usado por Deus para impor as mãos sobre Paulo. Esse ato foi decisivo para que Paulo recuperasse a visão e fosse cheio do Espírito Santo. Esse episódio deixa claro que não é necessário ocupar uma posição formal de liderança para impor as mãos, mas é indispensável estar sensível à voz do Espírito e agir conforme Sua vontade.

Em momentos de mover do Espírito Santo na igreja, a imposição de mãos pode ocorrer sem ser restrita exclusivamente aos líderes. No entanto, é fundamental que isso seja feito sob a orientação clara do Espírito Santo, garantindo que o propósito seja a edificação e a manifestação da vontade de Deus.

A imposição de mãos é um ato poderoso, mas não mágico. Seu valor está na obediência e na fé no que Deus faz por meio dela. Seja para curar, abençoar ou consagrar, esse gesto deve ser feito com reverência e entendimento de seu propósito, sempre buscando glorificar a Deus e edificar o Seu povo.

Charles Vieira

Professor da Escola de Missões Rhema e secretário da Coordenação Doutrinária do MVV